Eu ainda sou brasileiro
by duh on March 24, 2011
Casey Heines é seu herói, e os motivos que o tornaram são os mesmos que você aflige quando o chama de Zangief Kid. Provavelmente, as mesmas pessoas que assim o chamam descobriram na mesma semana a lei Rouanet. Juniores, eles chamam. Criam um evento no Facebook para protestar. É difícil escrever algo assim e não soar pedante, dono da razão, mas o exercício é necessário, uma vez que para identificar este comportamento, basta apenas isto: pensar. E isto sai dos dedos de quem criou o evento do fim do mundo, seguindo orientações milenares da cultura Maia (que eu aprendi assistindo arquivo X).
Pensar anda meio obsoleto, creio eu. O que antes necessitava de destreza para ir de um ponto a outro em uma tela hoje é feito pelos dedos, instintivamente. É complicado manter um cérebro atento e crítico navegando neste mundo de informação que não para de transbordar em rios de leds, oleds e pixels em geral. São mais pixels quadrados do que neurônios, que por anos de vida boa, estão ai, prontos para serem consumidos por diversos tipos de entorpecentes. E não me excluo desta.
Mas tenho exercitado muito não oferecer minha opinião bem como resguardo minha bunda. A questão, agora, é exercitar mesmo. Pensar em formas de expressão onde não são necessárias metáforas simplórias, apenas o que realmente sai dos dedos e como mágica viram pixels e passam a fazer sentido apenas pensando, e não esperando que a cognição venha instantaneamente, pois conclusões são muito perigosas quando não existe margem de interpretação.
A verdadeira preguiça a respeito, de criticar sem pensar, é que em muitos casos, não adianta pensar. Nem todos foram instruídos para tal, mas todos, até os sem instrução formal, acadêmica ou exotérica, foram condicionados a acreditar que se foi assinado, a responsabilidade por repassar a opinião não lhe pertence, fato este que me tortura diariamente tendo em vista a facilidade com que hoje as informações trafegam por todos os lados. Prevejo até que em breve será necessário fazer propaganda (no sentido marketeiro) para que informações com menos de 140 toques em um teclado, ou tela, ou pensamento, tenham maior relevância que as similares… ei espere!
E por mais que as ideias, conceitos, artigos e matérias tenham sofrido nas mãos dos que os assim gabaritados para tal divulgam numa rapidez nunca antes vista neste dia, é necessário parar um minuto que seja e pensar até que ponto a propagação vale a pena. Pois vou te dizer, não muda nada na minha vida o conhecimento de certos hábitos ou passeios corriqueiros de celebridades, que possuem maior destaque do que a poesia. Poesia está, nunca sozinha, muito importante para combater o analfabetismo funcional em todos os níveis. Mas há quem se importe com ela, e não me cabe julgar se a pessoa está certa ou errada em seus meios, ainda mais que hoje, é a inimiga nº1 de quem está vivendo o avatar adoidado.
esta noite eu vou quebrar seu coração (porque você sabe que quebrou o meu)
by duh on December 2, 2010
Saímos para um café. Na verdade, nunca saímos. Ou você vem para casa ou eu vou para a sua. O café até acontece, mas geralmente é precedido da cerveja, dos cigarros e de todo aquele papo que não pode ser evitado, afinal, há um cuidado, há um respeito. Não são trocas de fluídos em vão.
‘- Não fumo mais, sabia? Mas hoje abro uma excessão.’
São vidas, apenas vidas, pro bem e para mal, e que no fim da noite, acabam como vieram ao mundo. Não houve problema, não do modo como o mundo vê problema, apenas falta de objetivos em comum. Por mais que sejam apenas vidas, e que de alguma maneira se cruzam em diferentes tempos, o que nunca foi ruim.
Desconfortável apenas, no momento que não somos apenas dois, existem mais seres no conjunto nós, fica estranho. Me falta a vontade de ser o que somos sozinhos juntos, aquela coisa de não precisar justificar nada, afinal, o ponto é entender, não pontuar. Não tem ponto final, não nas nossas mentes, sempre querendo compreender o que não devemos, sabendo que não se deve. Tudo o que se passa fica nas quatro paredes, até quando estamos de roupas, e em algum momento do dia-a-dia o que dissemos nos chama atenção de alguma forma, mesmo embora o caminho que percorremos fora dela não se cruze.
É aquela coisa de poder ter um sentimento sem culpa nem tempo, onde o que vale apenas é o agora. E este instante pode ecoar por mais tempo para cada um de nós, mas tanto faz, o que importa é o quando, não o quanto. O disparo de uma arma de fogo em segundos diferentes pode provocar resultados totalmente antagonicos, embora os corpos estejam no mesmo lugar em ambos os momentos.
O porque me intriga as vezes, e nestas horas eu penso que não há motivo para preocupações a respeito. Vidas podem rolar em paralelo, por mais que a cumplicidade permaneça. É o tipo de motivo que procuramos para mudar tudo isso, o que nos tornaria comuns. Ai toda a aura, o café e o protocolo se tornariam apenas uma desculpa para uma cópula, o que não o é. É o meio, e ao invés de brindarmos no final de termos dito o que precisávamos, realmente nos unimos. Esta hora, nem lembro de todas as etapas que nos trouxeram até aqui.
E, em todo instante que fomos um, sempre senti a falta de mim mesmo.
Encaixotando Steve Bennet
by duh on November 5, 2010
Engraçado. Não é a primeira, nem a última vez que isso vai acontecer. Mas desta vez me dei conta. Tudo depende dos pequenos detalhes, das pequenas coisas que esquecemos e das grandes que só lembramos quando encontramos. Um mar de clichês que aqui se apresentam em caracteres.
É, vai ser diferente, eu penso. O tempo passa, as coisas mudam, mas quando me pego em m„os com objetos que ganhei a mais de vinte anos, percebo que velhos costumes sã válidos. Escrever é um deles. É como retomar algo que nunca se perde, sem comparar com bicicletas ou outros lugares comuns que julgamos nunca esquecer, como agradecer e perdoar.
De todas as mudanças, esta é a primeira sem rumo. E foi planejada para ser assim, caso contrário, seria como as outras. Se o destino não agradou, mude a rota. Nisso eu lembro de um filme que nunca assisti, e não vou roubar, vou homenagear no título, afinal, não entender orgulho é coisa do século XX. Hoje temos que ser tolerantes, da boca pra fora, e desconfiados cerebelo adentro. Isso enquanto não controlam nossos pulsos eletromagnéticos que interferem no celular, que não provoca e nunca provocará cancêr, uma vez que somos nós, humanos, nossa própria doença, e cura.
Bagunça, sujeira, nem percebo a música no repeat. Me recordo de ter escrito uma vez a luz de velas. Era para ser infantil. Agora não sei mais, não me preocupo mais com resultados e sim com intenções, e por mais que o inferno esteja repleto das boas, não existe negativismo sem justificativa, nem levanto o vidro pois nada de valor está fora da caixa, craniana. Espero apenas as palavras se juntarem e no fundo se entenderem, uma espécie de “kerning semiótico” que nem eu entendo, nem preciso, pois sei o que significou todo o montante de coisas que acumulei durante esses anos, e me lembro até de coisas e pessoas desfeitas. Máscaras que ainda guardo em algum lugar, talvez junto dos poucos brinquedos.
Ai me pego em coisas que sei que deveria ter jogado fora a muito tempo. Alguns livros que não li, esses não guardarei, é como sempre. Esperamos o momento. Por isso admiro quem começaa a refeição pela sobremesa, ao mesmo tempo que respeito quem come o ovo cru. Também não gosto das coisas indispensáveis de que não preciso mas guardo, digamos que por motivos burocráticos. Essa coisa de ser inocente até que se prove o contrário só existe nos filmes, já me ensinou a vida.
E por falar em filmes, guardei vários deles. Sob livros agora estão. Não lembrava mais quantos livros fui capaz de acumular, mesmo tendo usufruido muito de uma certa biblioteca cuja atendente era atraente o suficiente para eu tentar impressioná-la lendo Rainer Maria Wilke ou Saramago. Sara o que mesmo, ela disse certa vez. Acho que foi ai que passei a investir, em livros não e não na moça, e embora todos tenham sido absorvidos algum dia, posso querer repetir a dose, ou emprestar, ou presentear. Foi mais fácil com os cds, devidamente convertidos em mp3, o que facilitou muito minha conversão para uma vida portátil. Computador, dvd, mp3 player, era tudo transportável no pequeno automóvel. Vendi tudo quando precisava de dinheiro. Não há mais desculpas para não recomprar, além de esperar a mudança. Mas os livros, ah os volumosos. Eu posso recitar um trecho de uma genealogia que moral nenhuma explica, mas ainda guardo o tomo, que diz primeira edição. Está na caixa que parece valer a entrada de uma moradia em algum sebo, mas que na verdade mal pagaria o meu valor, R$5,40. Isso eu já expliquei anteriormente.
Faltam caixas. Nesta hora percebo que qualquer vida nunca vai ser portátil, nem estática, e muito menos, vazia. Sempre faltarão caixas, por mais que tudo possa um dia ser digitalizado, até nós mesmos. Toda a estética da coisa se distorce uma vez que na história exista uma mulher, ou dinheiro. … sempre culpa deles, separados ou não, embora romancistas insistam no mordomo.
Parece tudo em seu lugar, mas provavelmente não está. Sempre existe algo guardado enquanto deveria estar solto. Algo marcado, empacotado, e que parece que nunca vai se soltar, mas um dia. Sentimentos devem e podem ser mantidos a rédia curta, mas nunca outrém. Abro as caixas, organizo novamente e agora parece que tudo se encaixa. Mas ai não terá mais graça. Preciso da inquietação de saber que algo pode ser melhorado, independente do quão organizado possa parecer. Prefiro a inércia caótica de pilhas e pilhas de coisas que algumas pessoas dizem poder sobreviver sem. Hippies, nunca confie neles. Buscam apenas uma desculpa perfeita para a total falta de tarefas. Jamais espere algo de ninguém, nem de si mesmo. Surpreenda-se. Coloque em caixas, sabendo que mais cedo ou mais tarde irá tirar de lá, e sabendo também que caixas podem ser perdidas durante a mudança. … o risco que se corre, e desta vez, prefiro ir com os vidros fechados.
Pausa pro cigarro, pro café, e para que outros pensamentos tomem posição em uma mente ativa, mas cansada. Fim de ano, fim de ciclo, fim de tudo ao mesmo tempo em que se inicia outra jornada, outra busca que não começa pelo click em “estou com sorte”. Mudar em sagitário dá sorte, ou fazemos a nossa sorte? Tive um breve dejavu enquanto observava um cômodo vazio. A garrafa de água na mão já é um sinal de mudança. O cheiro da fumaça não, já me incomoda. Não entendo ainda como posso, mas entre um trago e outro, volto a formalizar o desejo de parar. De empacotar por hoje. Mas não posso. Essa última pausa na sentença foi intencional, como alguns pequenos erros ortográficos conscientes durante o testo, abrindo espaço para a ambiguidade. Considere a leitura dessa frase como ver o dvd com comentário do diretor onde pequenas mensagens nas entrelinhas são reveladas, embora como alguns diretores penso ser desprezível explicar semânticas utilizadas, mas como não sou considerado em academia alguma como um Letrado, tal parentese se faz necessário. Bem como explicar que nem todos os erros ortográficos são propositais, acho que isso faz jus.
Com a pausa, percebo que não é só em encaixotar que parei. Parei para pensar em não colocar mais o carro na frente dos bois, em seguir vocações, em descobrir e redescobir talentos que não devo mais encaixotar, sufocar ou procastinar. A urgência do som, a vontade de ser um prodígio já não são mais verdades, uma vez que hoje mesmo me peguei defendendo um prodígio de que não gosto, Mallu Magalhães. Culpei toda a pressão em cima do talento bruto e critiquei o fato desse talento se desperdiçar pela necessidade de se estar maduro antes mesmo de desabrochar. Demagogo sou. Busco as coisas cedo, anseio fazer algo melhor que Magnólia antes dos vinte oito anos como tinha Paul Thomas Anderson. Não preciso, não quero e não posso. Respirar. Pensar e encontrar saídas para que tudo o que eu nem sei que quero, posso ou faço ainda, e percebo que nada é por acaso quando existe a possibilidade de um dia se realizar em um destino ainda incerto, mas agora independente. Eu lembro do discurso do Steve Jobs. … só não mentir para eu mesmo que até consigo reinventar a roda. No começo este texto até pareceu falar de amor, não? Título usurpado, clichê e egocentrico de um amor próprio talvez? Não.
É sempre culpa de uma mulher, ou dinheiro… em/graçado?
ok, Picasso
by duh on November 5, 2010
- O problema é que as pessoas tentam me entender, coisa que é impossível…
- Sei não…
- Ah, vc acha possível me entender? Besteira acharmos que podemos entender alguém se nem ao menos nos entendemos…
- E talvez por isso que as pessoas tem tanto problema de relacionamento…
- Não, quer dizer, talvez… acho que na verdade as pessoas tem problemas de relacionamento porque não estudam matemática…
- O que você quer dizer? São pouco racionais?
- Não! Digo que a matemática não é a ciência dos números…
-???
Ela realmente queria saber onde isto ia parar. Ele continuou:
- É a ciência das relações. Se você entende matemática, você sabe se relacionar.
- Mas todo relacionamento é burro. Quando é inteligente vira amizade!
- Não…
- Não consigo ver relação…
- Ai é que está o erro. Em virtude do que você observa, e de suas experiências anteriores, bem como daquilo que te ensinaram, você pensa assim. Mas todo mundo sabe que aprendeu tudo errado, e mesmo assim, continuamos apostando na mesma fórmula. Não é 1+1=2… é 1×1=1… entende a diferença?
- Não…
- Ta certo… então me diga, quando você se interessa por alguém, o que te leva a isso?
- Várias coisas…
- Por exemplo?
- Amizade… sexo… comprometimento… troca…
- Certo… então dissecaremos isto… me diga, por que você precisa de amizade?
- Porque necessito de convivência.
- Como pode ter certeza?
- Porque eu me sinto sozinha…
- Entendo. Então você não precisa da amizade da pessoa… você precisa se relacionar socialmente conforme o ambiente em que está habituada. Logo, você não precisa da amizade específica da pessoa… serve qualquer uma que te de companhia e chame de amiga… você não está dando nada para ela, só pegando… ou seja, somando ela a você…
- Nunca tinha pensado nisso…
- Ok… porque você precisa de sexo?
- Necessidade física.
- Uma que você não supre sozinha… seus hormônios a chamam… novamente, você está somando.
- Exato!
- Você mais o cara = sexo.
- Nossa! É verdade!
- Calma… ainda não terminei… comprometimento… para que você precisa?
- Segurança.
- Imaginei… você sozinha não é segura…
- Não.
- Você necessita de alguém para sentir-se assim…
- E se fosse, para que precisaria de alguém?
- Mas eu não sou segura…
- Ah… então… você mais alguém, fica segura… somou novamente… e a troca, o que você precisa trocar?
- Idéias… pensamentos… aflições…
- E novamente, você não tem como fazer sozinha, não é mesmo?
- Não…
- E quando você pensa que finalmente não está somando, continua batendo na mesma tecla… pois se escolhe alguém específico, é somente pois precisa de algo desta pessoa, caso contrário, qualquer um serviria… então você soma novamente…
- Hum…
- Resumindo tudo o que falei, você = 1… a pessoa que você procura = 1… e você acha que o certo é 1+1=2
- Mas o certo é 1×1=1… Por que?
- Dizeis isso mesmo suas respostas indicando 1+1=2.
- Eu sei! Por isso estou te perguntando…por que 1×1=1 é melhor?
- Irei responder. – ele solta uma pequena gargalhada – Quando você sente-se sozinha, procura outra pessoa para sanar sua carência, somando ela à você. Agora, se duas pessoas ao invés de somarem suas carências acabarem mutuamente com ambas as carências, você anulasse isto, entende? Você não deve procurar alguém apenas quando está carente… você tem que procurar alguém independentemente disto.
- Eu tenho que procurar alguém para que então?
- Você só deixa de somar quando deixa de agir única e exclusivamente em pró de sua satisfação pessoal… não procurar alguém apenas pelo que ela tem a te oferecer, e sim pelo que você pode oferecer…
- E você pensou nisto tudo sozinho?
- Digamos que filtrei informações diversas e transformei nesta teoria… Ninguém cria nada sozinho… existe todo um repertório que cada um de nós absorve em nossas vivências… apenas me beneficiei de pensamentos anteriormente concluídos para, em base deles, criar um novo pensamento, cuja validade pode ser pessoal e intransferível…
- Ou não…
- Enfim…
Ela bate palmas. Ele volta a falar:
- Deixe-me concluir meu raciocínio, para tirar todas as suas dúvidas.
- Perdão…
- Quando você procura alguém por sexo, você busca satisfação.
- Correto.
- Sendo você mulher, melhor nem procurar.
Ambos riem por alguns instantes, até ela dizer:
- O que é uma pena…
- Mas continuando, você não tem que procurar por sexo… caso contrário, vira algo mecânico, e não acrescenta nada a você, acrescenta?
- Não, nada…
- Pois bem… quando acontece de forma expontânea, sem a necessidade de satisfação egoísta, e sim mútua, ai sim é valido… inclusive, deve trazer-te mais orgasmos… estou errado?
- Em momento algum…
- A segurança é algo mais simples… você não busca segurança, e sim uma auto-satisfação de saber que tem alguém caso precise… mesmo que ela não esteja disponível vinte e quatro horas por dia, fazendo chuva ou sol, ela irá te defender.
- Entendi…
- Mas pense comigo… ninguém jamais estará disponível para um próximo vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano… ninguém!
- Fato…
- Ai que mora a besteira, achar que pode encontrar isto. O que você realmente pode esperar, é alguém que sempre possa te ajudar quando você realmente precisa, aquela pessoa que mesmo sabendo que você está errada, estará ao seu lado… afinal, todos nós erramos…
- Entendo… e acho isso lindo.
- Não sei se lindo, mas é o que é, e as pessoas teimam que não seja. Não é isso que nos ensinam na escola, em casa ou na televisão. Entende o problema?
- Entendo.
- Agora a troca, você pode fazer com todos, e, como já disse, se se prende a trocar experiências, afeto, o que quer que seja, apenas com uma pessoa, torna-se viciada, no sentido de não querer mais ver, e por consequência, ensinar a mais ninguém… o que é uma grande bobagem, tendo em vista que a maior prova de amor é a liberdade…
- Será mesmo?
- Olhe… as pessoas acham que a conquista, é ter a pessoa ao lado, quando na verdade, a verdadeira conquista é quando a pessoa não estiver ao lado, ter a certeza que ela irá sempre voltar, compreende?
- Hum… mas e o seu raciocínio, 1×1=1… quando você para de buscar coisas nos outros….
- Você quer uma prova empírica da minha teoria…
- Claro.
- Certo… sabendo que temos o coração e o cérebro, você diria que o lado racional é o cérebro, o emocional o coração, correto?
Ela ia responder, quando ele a interrompeu:
- Não! Quando você gosta de alguém, e sua insegurança torna-se ciúmes, de onde este ciúme vem, da cabeça ou do coração? Um sentimento racional ou emocional?
- Em ambos?
- Não! no lado racional. Ele que coordena as ações de seu corpo, processando a insegurança e provocando aquele aperto no peito característico… o cérebro que diz ao coração que algo está errado… o ciúme não sai do coração, pois é o cérebro que gera o ciúme, o arrependimento, pondera e trás sentimentos e sensações ruins… Nesta linha de raciocínio que me baseio para dizer que o coração de todos é puro, sem excessão… O problema está na cabeça, pois as pessoas acham que o racional é, o que na verdade, é o lado ruim do emocional… que o racional não é pensar como as pessoas acham, e sim ter o real controle da razão, fazendo com que apenas venha a tona a emoção… mas não o combatem, pois acham ser natural… foi convencionado assim… entende?
- Entendo.
Ela realmente entendeu, e, neste momento, percebeu que por maior que fosse o interesse físico e intelectual evidente entre ambos, a química jamais estaria completa, estando os dois em frente a telas luminosas distintas, chamadas de monitor. Entendeu também que quando disse a ele eu te amo, foi racional, programado, convencionado, bem como ficou claro o intuito de suas vidas se cruzarem neste momento. Envergonhou-se, mas estava feliz, buscaria agora a liberdade. Lembrou-se de quando ele disse que somos tudo o que fizemos, devido as nossas decisões, e decidiu tomar uma, pois entendeu que a conversa não levaria a nada. Desconectou seu computador, sem dar tempo de ler a última mensagem que ele enviou:
- Concluindo, ser racional é não deixar o cérebro comandar suas emoções… somente assim liberta-se o coração. Só queria te dizer isto.
coberta curta (ou quando você cobre a cabeça e descobre o pé)
by duh on October 25, 2010
- Perdeu, Playboy.
Que perdeu estava claro. Playboy não. Talvez por estudar em uma faculdade de elite, mas até ai, era bolsista. O fato é que bordões do cinema nacional se estigmatizaram na cultura popular bem rápido. Afinal de contas, todo mundo quer ser o Zé Pequeno, não é mesmo? Márcio não. Até poderia, mas preferiu outro caminho, menos cliché, ao contrário do o policial que o abordou. Este tinha certeza que era como o Capitão Nascimento, desde que comprou o dvd pirata em 2007.
De família humilde, Márcio cresceu na periferia sem nunca precisar ‘fazer fita’, como dizem. Oportunidades não faltaram, mas sua família recebeu o apoio do governo, o bolsa família. Realmente ajudou a manter as crianças longe do crime. Não tiveram uma vida de luxo, pelo contrário, mas puderam estudar. Dos três irmãos foi o único a ir para a faculdade, programa Pró-Uni. Os outros dois poderiam, mas optaram por abrir um mercadinho na comunidade, e iam muito bem para ex-alunos da rede pública do estado de São Paulo. Escolas de lata, mas vontade de ouro.
Precisou sair do extremo norte da cidade para experimentar maconha com os novos amigos da faculdade. Eram os tipos de pessoa que tem seu carro pro rodízio, afinal, quem pode pode, não? Experimentou, mas não gostou muito. Drogas nunca o apeteceram. Na verdade, nunca pensou em ter vontade, mesmo, para nada. Foi seguindo a corrente. Escola, faculdade, uma hora aparece uma mulher, arrumar um emprego desses das 9 às 17H, casar, ser promovido, ter um carro, um lar, uma família para chamar de sua e todas as subsequentes dores de cabeça que movimentam o capitalismo a gerações antes da dele. É difícil se tornar cavaleiro em uma manada cujo maior ícone nos últimos vinte anos não morreu de overdose.
O fato é que estava sendo autuado como traficante, por uma dessas coincidências que autores medianos sempre prevêem. Na sala de aula, o garoto pobre, com maconha. Os policiais nem precisaram ver o ‘secreto’ do detetive para saberem de quem era a ganja.
Previsivelmente, a droga não era dele. Nem para consumo, embora um certo colega de classe já tenha oferecido uns ’3 pra 1′. Jorge era seu nome.
- É de qualidade, no mel, sem veneno de rato. Não dá pigarro, pode confiar.
Jorge realmente sabia disso. Cresceu em um bairro destes classe média, de onde via de cima os carros passarem. Teria tudo para ter uma vida mais fácil que a de Márcio. E por valores pequeno burgueses, teve. Mas quando esperava ganhar seu carro novo em seu aniversário de 18 anos, ficou com o velho do pai. Havia algo errado, pensou na época, mas não deu muita bola. O pai, um micro-empresário do ramo farmacêutico sempre cumpriu o que se espera de um provedor do século XX: viagens pra Disney, mesada compatível com as entradas de matinês e cinema, e, de vez enquanto, uma passada de mão na cabeça do filho, mas dentro do condomínio, é claro. Jorge só percebeu que algo não batia com o script quando não quis fazer cursinho para entrar em uma faculdade pública, e o pai insistiu. Não passou no vestibular, mas achava que estava páreo para o Rui Chapéu no mata-mata.
Como se esconder por trás do diploma está no DNA de quase todo futuro cidadão que acha que se preocupa com o futuro, Jorge entrou em uma faculdade de elite, e vivia com mensalidades em atraso. Isso nunca o aborreceu de fato, agora não ter a grana para ir para praia toda semana, isso sim o assolava. Não pela casa de outrora ter sido vendida pela família a alguns anos, afinal, quem tem amigos tem casa na praia. O fato é que o dinheiro estava curto, e viver sem estes pequenos prazeres era muito complicado para um Neo-pobre. Na época do FHC não era assim, ele se lembra. Também se lembra de ter comprado direto na boca aos 16 anos, para impressionar algumas garotas na saída do colégio. Estas lembranças o levaram de volta o ponto de venda do quarto setor, 8 anos mais tarde, mas desta vez como um negociante. Era fácil. Cobrava a mais dos amigos, levava sua parte e podia ir para a praia curtir o do bom no fim de semana. E funcionou muito bem por um tempo. Até aquele dia, onde recebeu um sms de um cliente, informando que os homi sabiam que o bagulho chegou e iam dar o flagrante na faculdade. Não teve dúvida. Deixou as 250g na sala de aula e foi embora para casa no intervalo. Na fuga até trombou com Márcio, e lembrou que devia ficar na sala para fazer o trabalho em dupla com o mesmo. Mas na vida é assim, né? Um ganha, outro perde.
a voz da experiência
by duh on October 25, 2010
- Tá estressado? Fuma maconha. Garanto, funciona.
Olhei bem para o rosto daquele senhor. Não me parecia usuário.
- Não obrigado. Prefiro uma opinião médica.
- Tem médico que receita, você sabia? Na minha época não era assim não, maconheiro era vagabundo. Hoje em dia é comum, vai por mim, tenho netos da sua idade.
Não tive forças para explicar ao colega que só fumo em ano de copa do mundo (afinal, Paraguai contra Nigéria, só fumando um mesmo). Por mais que eu entendesse que aquele senhor deveria estar ali mais para conversar do que para ter uma consulta emergencial, não conseguia me livrar do sentimento de aversão a coletividade. Mesmo sabendo que o meu eu só faz sentido se inserido num contexto de nós, como raça humana, não conseguia a simpatia necessária para continuar a premissa de um bate papo agradável proposto pelo notável viuvo ao meu lado. Optei por um cigarro.
Mal havia saido da sala de espera do pronto socorro e acendido o cigarro, já ouvi meu nome sendo gritado por um enfermeiro, e a senha no monitor de plasma não deixava dúvidas, era minha vez. Joguei o cigarro na rua e corri em direção ao consultório. Sentei e expliquei o grande drama: não conseguia dormir.
O médico me encarava como se eu fosse um drogado. Não para menos, vinte e quatro horas sem dormir deixariam qualquer Brad Pitt parecendo o Steve Buscemi, mas o fato é que eu não estava ali em busca de drogas. Eu só quero saber se a visão turva é resultado de qualquer coisa que não seja a insônia. Em vão. Após exames de rotina onde nada anormal foi encontrado, ouço do médico:
- Eu vou te receitar este medicamento, é controlado. Mas você deve procurar um especialista.
- Certo, de que tipo? – respondi mais por desencargo de consciência, estava claro que o problema era na cabeça.
- Um clínico geral, sua visão está assim pois você não dorme, e um psiquiatra. Neste pronto socorro não tratamos problemas crônicos, apenas emergências. Durma, descanse e procure tratamento adequado.
Agradeci ao Doutor pelo seu tempo que eu não deveria ter desperdiçado, peguei a receita e fui embora. Nem me dei o trabalho de passar na farmácia, uma vez que certamente conseguiria fechar os olhos sem o medicamento. E a possibilidade de abri-los novamente após algumas horas também seria maior. Assim o fiz.
Nas treze horas que se seguiram, muitos sonhos. Daqueles que não conseguia mais ter de olhos abertos. Daqueles que só a imaginação de alguém cujo poder de congnição não tivesse sido afetado pela realidade. Sim, somente crianças e políticos por aqui sonham sem se preocupar com impostos. Me admira o fato de nunca ter pago imposto por idealismo, ou por sonhar. Por desejar algo mais leve do que o acorda-come-transito-trabalho-come-trabalho-transito-come-dorme. Por entender que a injustiça prevaleça, mas não deva ser eterna enquanto dure. Saber que é possível ser profissional e humano. O tipo de coisa que só a juventude ingenua possui. Tinha sido o tempo, como foi o sonho que não recordei, pois quando realmente despertei, ainda estava cansado.
Acordar de um sono merecido mas mal dormido nunca é o ideal para recarregar energias por stress, vide clube da luta. A questão agora é que por necessidade da cevada nossa de cada fim de semana, não seria possível me abster do próximo dia de labuta, mesmo que fosse a sexta-feira que seria. Lembrei-me do remédio, e sim, tinha a receita. Tomei um banho e parti para a farmácia.
Adentrei em passos firmes, mas cautelosos. Não podia parecer o junkie que não era. Entreguei a receita a balconista com um sorriso discreto. Ela examinou minuciosamente a receita e concluiu:
- O médico não preencheu o seu endereço.
-E? – perguntei eu, uma vez que o nome do remédio, meu nome e o carimbo do hospital estavam legíveis até para uma letra caracteristica de médico.
- E que caso eu preencha seu endereço, será considerado rasura, e este tipo de medicamento, por ser controlado, não pode ter a receita rasurada.
Achei que era preguiça de fim de expediente da moça, peguei de volta a receita e decidi ir para uma farmácia concorrente, novamente sem sucess e, pelo mesmo motivo. Resolvi ir a uma grande rede de farmácias, talvez menos burocrática. Ledo engano. Desta vez, já perturbado com a falta de sucesso da empreitada, totalmente lícita diga-se de passagem, solicitei a presença do gerente e disse:
-Veja. Este é um remédio para combater stress, procede?
- Sim, com certeza – disse o gerente.
- Pois bem. Esta é a terceira farmácia que tento comprar e me negam, pelo mesmo motivo. Você concorda que a busca deste remédio contra stress está me causando mais stress?
- Sim senhor, compreendo, mas infelizmente não posso vender sem o médico ter preenchido corretamente.
Achei mais prático não discutir, e perguntei qual a solução, mais por desencargo de culpa do que propriamente pela informação em si, uma vez que se confirmou que eu deveria voltar ao pronto socorro. Já eram dez horas da noite, impossível o mesmo médico estar lá desde as oito da manhã. Mesmo assim, não vi outra solução e para lá rumei.
Pronto-socorro em bairro de classe média pequeno burguesa costuma ser lotado, por mais abusivos que sejam os valores de planos de saúde. Mesmo assim, como bom conhecedor da lei de Gérson e com nível de stress elevado a uma boa potência, optei pelo jeitinho e fui direto a enfermeira chefe. Expliquei todo o caso, o que não bastou. Foi quando ouvi:
- Sinto muito, mesmo averiguando no sistema que realmente o senhor realizou a consulta hoje e a receita procede, o médico não esta mais aqui. Por motivos éticos, nenhum outro médico pode prescrever outra receita identica, o senhor deve passar por outra consulta.
Apelei por bom senso, recebi um sorriso amarelo, que respondi com um olhar vermelho rumando em direção a recepção do pronto-socorro.
Mesmo que minha aparencia demonstrasse a necessidade do medicamento, meus protestos foram em vão. Novamente, retirei a senha, número 78 desta vez, e fui fumar um cigarro para encurtar o tempo de espera.
Foi dar o primeiro passo para fora da recepção e percebi que estava sem cigarros. Avistei um bar, daqueles bem copo sujo, do outro lado da rua e para lá parti. Chego no caixa e digo para o simpático atendente:
- Quero fumar, tem marlboro?
- Não só marlboro, tenho um do artista bom também. É três para um, coisa fina. Coxo um de amostra grátis, aceita?
Olho no plasma da recepção. A senha chamada é a de número 30. – É, aceito.
Traguei e pensei: devia ter ouvido a voz da experiência. Ela certamente sabia que, no Brasil, é mais fácil comprar maconha do que remédios controlados.
a índia alemã
by duh on October 25, 2010
- Mas eu não quero esta vida…
- Nem eu. Mas a sua mulher é louca…
Impressionante como ninguém quer a vida que leva. E foi só ao observar este feio casal de uns quarenta ou cinquenta anos, ambos de aliança, no meio da rua, discutindo sobre seu aparente caso, que eu percebi como eu sempre quis a vida que levo, sem dinheiro, sem mulher e sem sonhos. Nunca quis ser outra pessoa, talvez alguns personagens, mas ninguém que eu tenha conhecido pessoalmente. Posso invejar as relações, as posses e a aparência alheia, mas nunca quis ser eles. Conscientemente, também nunca quis ser eu, mas o fato é que eu sou, e não tenho como fugir disso.
O ônibus chegou logo, e entrei, passei a catraca e logo sentei, ainda pensando nisso. De alguma forma, eu agora aceito o que sou hoje. E mesmo que eu não saiba direito o que é ser alguém, eu vou levando. Por algum motivo, me deu uma vontade incrível de chorar. Foi quando em uma parada na frente de um cemitério, entrou uma moreninha sorrindo. Por reflexo, sorri também. Dava para ver em seu sorriso que ela também é uma fodida de grana, mas ainda assim sorria. Certeza que ela deve ter sonhos, ou pelo menos um macho em casa.
De qualquer forma, meu pensamento foi interrompido por um vendedor de flanelas. Foi a primeira vez que um desses vendedores que poderiam estar roubando, mas estão trabalhando, me ofertaram algo que não provocasse cáries. Procurei uma moeda no fundo do bolso para adquirir tal pechincha, e quando finalmente arranquei ela em um só golpe, todas as outras moedas escorreram para o chão. Constrangedor? Um pouco. Comecei a juntá-las, quando ela passa pela catraca e se senta no banco imediatamente atrás ao meu, mas do outro lado. Pele morena, não de sol, aproximadamente um metro e setenta e cinco centímetros, cabelos loiros e lisos. Se eu não estivesse bem acordado, juraria que era uma índia alemã. Mas eu estou no Brasil, e tal utopia genética é totalmente plausível.
- Estas flanelas são de primeira qualidade, muito úteis para limpar os óculos dos senhores…
Volto a minha mente, e tudo bem, não é a primeira mulher desconhecida que eu olho e penso que daria filhos a ela, e no momento seguinte, já imagino sua bunda empinada no tanque. Não é a primeira vez que não sei o que fazer, o que pensar, que perco a noção da hora, que tudo o que consigo pensar em dizer é queria ter algo a dizer. Certeza que não foi a última vez que esquematizei todo o plano de como puxar papo, mas foi a primeira vez que quando olhei para trás, a mulher ainda estava lá. E ela olhou para mim.
- Vai querer a flanela, campeão?
Campeão? Eu só recebo todo o descaso do primeiro lugar no fracasso, mas mesmo assim, pego a flanela.
- Deus te abençoe.
Já me abençoou. Ela olhou para mim. Mas e agora? Tenho que disfarçar. Abro um livro. Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes. Ela pode se impressionar. Ou pode me achar um chato. Ela também está lendo. A insustentável leveza do ser, Milan Kundera. Ótimo. Lembro do filme. Lembro nada. Só lembro de ter me masturbado muito na adolescência vendo a Juliette Binoche semi-nua. Malditos hormônios. Maldita situação. Estou transpirando. Óbvio. Após um dia de trabalho em São Paulo, onde a amplitude térmica é tão imprevisível quanto o trânsito, que no momento, está parado.
- Deve ser alguma manifestação – disse o cobrador.
Perfeito. Ainda tenho tempo de trocar algumas palavras com ela. Mas como? É sempre a mesma dúvida. Por que diabos as grandes cidades erguem fortalezas impenetráveis em torno de cada cidadão? E por que eu não aceito que quero a conhecer e ligo o foda-se para se hipótese dela me me achar um xavequeiro barato? Queria um real por cada porquê…
Eu continuo tentando chamar a atenção sem ser notado. Coloco os fones no ouvido, volume no máximo. Talvez ela escute, e se identifique com a música…”se um dia nóis se gostasse…”. Lentamente ultrapassamos a manifestação. Ela não lê mais, olha pela janela. Seus olhos são cor de café, como os meus. Ela veste uma blusinha branca simples, jeans e uma sandália sem salto. Eu visto um terno de quinhentos reais surrado pelo tempo, e percebo que sentei em um chiclete, que é só a cereja no topo do sorvete, o que coroa minha imaturidade. Maldito transporte público. Eu sou usuário pois ainda não consegui comprar um carro. Nota-se pela minha vestimenta. Ela deve usar por questões ambientais. Estes pensamentos estão insuportáveis. Não dá para viver assim para sempre. Algo precisa ser feito. Pelo menos um olá. Eu desço em poucos minutos, preciso de algo, mesmo que não tenhamos nada em comum, não posso deixar esta chance passar. Não mais uma… Olho para trás. Ela se levantou e anda em minha direção. Apenas observo. Ela se dirige ao cobrador e pergunta:
- O próximo é o paraíso?
- Sim – responde o cobrador.
Ela anda em direção a porta dos fundos. A voz dela não é como eu imaginava. Ninguém é perfeito. Nem ela.
Me levanto, já que também desço no próximo. Ela é quase da minha altura, e a blusa cobre a bunda. Terei de imaginar como deve ser. Ando em direção a ela, ela levanta o braço, dá o sinal e me dirige um simpático sorriso. Percebo que ela deixa cair um pequeno pedaço de papel. É a minha chance: pegar e entregar para ela, ouvir um obrigado, responder um de nada, e puxar assunto. Sempre dá certo nos filmes.
Eu pego o papel, e leio: “nunca bata em portas que você jamais irá abrir”. O ônibus para, ela desce, eu desço. Ela sobe a rua. Eu, desço.