meu próprio clube da luta.
by duh on February 19, 2013
Tem uns anos que eu peguei todas as cartas que tinha na vida e ao invés de apostar que ia virar um flush (sempre vira quando você sabe o que quer), coloquei tudo na manga e dei all-in na vida, não na mesa do jogo da vida, aquela que me fez pular a faculdade direto pro emprego de 16 mil/rodada. Desencanei da roleta que me fazia andar até dez espaços e resolvi andar um por vez com meus próprios pés.
Entendi que não é o capitalismo o problema, é a indústria do medo. Do medo de não ter uma vida da qual os holofotes apontam para você, seja em ser bem sucedido, ter uma casa/carro/família/cachorro/comercial de margarina. Do medo de ficar por fora, à margem, excluído. A indústria do medo sempre fez isso com pessoas como eu, que resolvem pensar e não acreditar em tudo que ouvem por ai. Pensamento crítico na nossa sociedade é mais infiançavel do que roubar galinha ou não pagar pensão. O problema é que a indústria do medo funcionou muito bem quando toda informação era mão única. Você assistia a tv, a tv não te assistia. Você pegava uma folha de almaço e a barsa, entregava o trabalho sobre o sete de setembro sem que seu professor precisasse procurar no google se você copiou. Você lia noticias sem tempo real em um papel que custava menos do que a gasolina, que alimentava opalões que bebem mais do que eu quando tinha uma banda de rock e fazia umas quarenta e oito horas por litro de whisky. O problema é que a indústria do medo nunca perde, nunca. Ela evoluiu pra indústria do anseio. Somos tão ansiosos hoje que nem é possível acreditar que um tal de Noé um dia levou tanto tempo para construir uma arca. Isso pra quem acredita que ele realmente construiu, eu acredito na metáfora. E também acredito que a via de mão dupla do anseio é muito, mas muito mais eficaz do que a indústria de mão única do medo. Ao fazer nosso tempo ser consumido numa enorme urgência de nos manifestarmos sobre tudo, todos, e principalmente toda hora, não sobra tempo para parar e pensar. Ai continuamos a entregar nossas opiniões à indústria do medo, que aliada ao tempo que consumimos com isso com a da ansiedade, está nos tornando toda a ficção hype atual em vida real. Somos os zumbis. Eles são os vampiros.
Quando surgiu o orkut anos atrás, além de ter vergonha de mencionar que lá habitava virtualmente para meus amigos na faculdade, eu via aquilo como algo que sempre achei excelente: manter contato com quem para mim valia a pena. Era uma espécie de bar que ao invés de encontrar quem via todo dia, via quem não conversava a anos e batia um papo. Hipoteticamente, isso seria muito legal. Afinal de contas, quando alguma amiga minha voltava de viagem nos anos 80 não colocava minhas fotos de bikini em um outdoor na frente de casa. Isso, amigos, chama bom senso que a tecnologia a nossa frente parece ter removido dos cérebros de quem, alimentado pela indústria do medo e ocupado pela da ansiedade, sequer parou para pensar. O meu bar virtual se tornou um divã interminável onde um monte de gente que eu considero muito sem precisar beber para usar tal frase se mostra e acaba com toda aquela admiração platônica que sempre me fez bem: saber que existe um lado bom em todos. E existe sim. Mas essa indústria da ansiedade aos poucos está matando isso, nos tornando reis nus em uma praia virtual nudista onde quem está de roupas é o otário. Não tem volta. Hipocrisia deveria ser matéria obrigatória em escolas que deveriam substituir as campainhas de intervalo por berrantes. E essa hipocrisia, somada à todas as consequencias do efeito da indústria do medo e da ansiedade, que nos tomaram o pensamento e o tempo, acabam por ocupar todos os nossos seres para que as partes boas não existam mais. Eu sei que sou julgado pelos eventos que clico em aceitar e nunca fui no facebook, não pensem que me enganam. Mas minha vida é muito mais do que eu clico, ou posto. É o que eu faço, e infelizmente, não posso dizer isso do que leio. Isso me magoa mais do que imaginam. Me isola. Me coloca à margem, novamente. Só que ao invés de nadar contra, vou assumir estar fora do clubinho de vez. Não serve mais pra mim. Portanto, entendam que aqui tudo o que virem sobre a minha pessoa, é o personagem. Por mim, saia do facebook. Obrigações do all-in acima citado não permitem, tanto que nem do orkut sai. Quem somos de verdade, poucos sabem, e pra mim está bom assim.
Não escrevo isso para que vocês larguem seus empregos, famílias, pra dar lição de moral ou qualquer coisa que o valha. Não fui sucinto de propósito. Não acho que isso sirva para todos, como tudo o que faço hoje. Alguns entendem, outros não. Cada um tem que saber o que é melhor para si, e estou longe de viver um padrão de tudo isso citado acima. Escrevo isso para romper com a inércia. A minha inércia, que julguei ter me livrado com o que expus no primeiro parágrafo. Eu quero mais é que vocês gastem o tempo falando sobre o que acontece agora do que pensando no futuro. To muito ocupado fazendo coisas pra saber se está chovendo. Mas não todo o tempo. Peço que me prometam pensar mais antes de escrever qualquer bobagem aqui, não por mim, não mais lerei. Mas por vocês, para que um dia possam se considerar livres, coisa que não sou.
Eu achei que a tecnologia poderia me aproximar, e é o contrário. Eu gasto mais dinheiro na psicóloga hoje em dia do que gastaria em um prostíbulo para ter uma conversa inteligente que mesmo a tecnologia me permitindo, me falta. Afinal de contas, achamos mais importante um aplicativo para libidinagens do que um para pensar. E infelizmente, como no do sexo, o de papos inteligentes também ainda não acusou nenhum resultado. Mas quem quiser, sabe onde me encontrar.